Não há festa, funeral, batizado ou simples visita de cortesia em Santo Antão sem grogue por perto. É a aguardente de cana-de-açúcar que atravessa a vida da ilha de ponta a ponta, e cresci a vê-la fazer parte de quase todas as ocasiões importantes da minha família.

Arlindo Monteiro

Escrito por Arlindo Monteiro

Natural de Santo Antão · Ex-guia turístico e de mergulho na ilha

Uma bebida que nasce nas ribeiras

O grogue começa nos campos de cana-de-açúcar que crescem nos vales mais férteis da ilha, sobretudo no Vale do Paúl. A cana é cortada, moída num trapiche (tradicionalmente puxado por bois, hoje mais vezes a motor), e o caldo resultante é fermentado e destilado em alambiques que, em muitas famílias, passam de geração em geração. Não é incomum encontrar um pequeno trapiche familiar escondido numa encosta, longe de qualquer estrada principal.

O que aprendi a servir a um visitante

Como guia, uma das perguntas que mais ouvia era simplesmente "o que é isto?", apontando para um copo de grogue numa mesa de restaurante. A minha resposta ficou quase automática ao longo dos anos: expliquei que se bebe normalmente em pequenas doses, muitas vezes acompanhado de um pedaço de queijo local ou de doce de leite, nunca de um só trago como se fosse um shot de bar. Vi mais de um turista entusiasmado aprender essa lição da forma mais desconfortável possível.

Um agricultor de Chã de Igreja disse-me uma vez: "O grogue não se bebe com pressa. Bebe-se com conversa."

Ponche: o outro lado do grogue

Vale a pena distinguir o grogue puro do ponche, uma mistura de grogue com mel de cana e, muitas vezes, sumo de fruta ou especiarias, mais suave e mais fácil de apreciar para quem experimenta pela primeira vez. Recomendo sempre aos visitantes que comecem pelo ponche antes de se aventurarem no grogue puro, é uma forma mais gentil de conhecer o sabor.

Mais do que uma bebida

O que mais me marca no grogue, olhando para trás depois de tantos anos a mostrar a ilha a visitantes, é o quanto ele representa a autossuficiência de Santo Antão. Numa ilha vulcânica, isolada e historicamente sujeita a secas severas, a capacidade de transformar a cana-de-açúcar cultivada localmente em algo que se guarda, se comercializa e se partilha, fez sempre parte da forma como esta comunidade sobreviveu e celebrou em conjunto. Se visitar a ilha, procure provar grogue diretamente junto de um pequeno produtor local, é uma experiência bem diferente de comprar uma garrafa numa loja.