Antes de guiar visitantes pelas montanhas, guiei-os debaixo de água. Geri durante alguns anos o centro de mergulho Santo Antão Scubadiving, e foi aí que conheci o outro lado da ilha, aquele que a maioria dos turistas nunca chega a ver.
Um oceano diferente a cada poucos metros
O que mais me marcou nos anos a mergulhar ao largo de Santo Antão foi a variedade em espaços relativamente pequenos. Perto da costa da Ribeira Grande, a água é mais protegida e clara, boa para quem está a aprender. Já ao largo de Tarrafal de Monte Trigo, ou da costa mais exposta a norte, as correntes tornam-se muito mais fortes e imprevisíveis, e exigem experiência real, não apenas um certificado na carteira.
Lembro-me de explicar isto vezes sem conta a mergulhadores que chegavam de outras ilhas de Cabo Verde, habituados a águas mais previsíveis. Santo Antão não perdoa quem subestima o Atlântico só porque o litoral parece calmo à superfície.
A primeira vez que vi uma manta a sério
Há um mergulho de que me lembro com particular carinho: um grupo de portugueses, todos com boa experiência, que vieram especificamente à procura de vida marinha de maior porte. A meio do mergulho, a cerca de 18 metros, apareceu uma manta-raia, silenciosa, a planar mesmo por cima de nós como se nos estivesse a inspecionar. Ninguém se mexeu. Ficámos ali, suspensos na água, os cinco minutos mais silenciosos e mais intensos que já vivi debaixo de água.
Depois desse mergulho, um dos portugueses disse-me: "Vim à procura de peixes bonitos. Encontrei uma razão para voltar."
Correntes que ensinam humildade
Nem todas as memórias são boas. Houve um dia em que subestimei a força de uma corrente numa zona que já conhecia bem, e um mergulhador do grupo afastou-se mais do que devia antes de eu reagir. Não aconteceu nada de grave, recuperámo-lo em poucos minutos, mas foi um susto suficiente para me lembrar, todos os dias seguintes, de nunca dar as condições do mar como garantidas. O oceano ao largo de Santo Antão muda de humor depressa, e um bom guia de mergulho respeita isso mais do que qualquer certificação.
Porque vale a pena mergulhar aqui
Santo Antão não é um destino de mergulho tão conhecido como o Sal ou a Boavista, e é precisamente por isso que vale a pena. Os recifes estão menos visitados, a vida marinha é mais abundante em certas zonas, e há uma sensação genuína de estar a explorar algo que poucos viram. Se decidir mergulhar na ilha, procure sempre um centro licenciado e converse com o instrutor sobre as condições do dia, elas mudam mais depressa do que se imagina.