Tinha 23 anos, um grupo de seis alemães confiantes e um mapa que, olhando para trás, não era assim tão bom. Foi a primeira vez que guiei alguém ao Topo da Coroa, o ponto mais alto de Santo Antão, e é uma manhã que ainda hoje me lembro em detalhe.

Arlindo Monteiro

Escrito por Arlindo Monteiro

Natural de Santo Antão · Ex-guia turístico e de mergulho na ilha

Um trilho sem trilho

Quem já leu o meu guia do Topo da Coroa sabe que não é um percurso marcado. Não há sinalização, não há um caminho único, apenas trilhos de cabra que sobem e descem pela encosta, e a orientação depende de se saber ler o terreno. Na altura, eu tinha feito a subida sozinho talvez três ou quatro vezes. Achava que sabia o suficiente.

O grupo tinha chegado a Santo Antão há dois dias, vindo de Berlim, e queria "o desafio verdadeiro" da ilha. Avisei que era exigente. Não avisei o suficiente sobre o que significa exigente quando não há trilho a seguir.

A neblina que mudou tudo

Saímos de madrugada, ainda escuro, para apanhar o nascer do sol no cume. Até meio da subida correu tudo bem, o grupo estava em boa forma e o ritmo era bom. Mas por volta das 1.500 metros de altitude, a neblina desceu sobre a Coroa como uma cortina, de um momento para o outro. Perdi a referência visual que costumava usar, um afloramento de rocha escura que se vê do vale, e percebi que tínhamos desviado do que eu considerava o "meu" caminho habitual.

Não estávamos perdidos, no sentido de não saber onde estava a ilha. Mas eu não sabia, com confiança, qual seria a subida mais segura a partir daquele ponto exato, e isso, para um guia, é uma sensação que não se esquece.

Parei o grupo, sentei-me numa pedra e disse a verdade: "Vamos esperar a neblina levantar. Não vale a pena arriscar por pressa."

Ficámos ali quase quarenta minutos, em silêncio na maior parte do tempo, a ouvir o vento e as cabras que se moviam algures por perto, invisíveis. Um dos alemães, o Klaus, tirou uma barra de chocolate da mochila e partilhou com todos. Ninguém se queixou. Foi talvez a primeira vez que percebi que parar não é falhar, é fazer parte do trabalho.

O que essa manhã me ensinou

Quando a neblina finalmente abriu, reconheci de imediato onde estávamos, a cerca de 200 metros da rota que eu pretendia. Retomámos a subida com calma redobrada e chegámos ao cume por volta das nove da manhã, mais tarde do que planeado, mas a tempo de ver o topo da ilha inteira emergir das nuvens como uma ilha dentro da ilha. Foi, sem exagero, um dos momentos mais bonitos que já vi em Santo Antão, e ainda hoje penso que valeu a espera.

Depois desse dia, mudei a forma como preparo qualquer subida ao Topo da Coroa: passei a levar sempre GPX descarregado, a estudar previsões de nebulosidade na véspera, e, acima de tudo, a aceitar que a montanha decide o ritmo, não o guia. É o mesmo conselho que dou hoje a quem planeia fazer esta subida: leve mais tempo do que pensa precisar, e esteja disposto a parar se o tempo mudar. A Coroa não vai a lado nenhum.