Quando comecei a guiar visitantes por Santo Antão, cruzava-me com um punhado de turistas por semana nos trilhos mais conhecidos. Hoje, em época alta, cruzo-me com esse número num único dia em Fontainhas. Não sei se isso é bom ou mau, é provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo.

Arlindo Monteiro

Escrito por Arlindo Monteiro

Natural de Santo Antão · Ex-guia turístico e de mergulho na ilha

O que ganhámos

É inegável que o turismo trouxe algo real à ilha. Casas rurais que antes eram simplesmente casas de família passaram a receber hóspedes, criando um rendimento que muitas vezes é a diferença entre um jovem ficar na ilha ou emigrar para São Vicente ou para a Europa, como aconteceu a tantas famílias santantonenses ao longo de gerações. As estradas melhoraram, em parte por causa do turismo, em parte independentemente dele, e isso facilitou também a vida de quem sempre viveu aqui, não só a dos visitantes.

O que se perdeu, ou está a mudar

Ao mesmo tempo, vejo aldeias como Fontainhas a lidar com uma pressão que não estavam preparadas para receber. Há dias em que os trilhos mais populares parecem mais um desfile do que uma caminhada, e isso muda a experiência tanto para quem visita como para quem vive ali. Também noto, com alguma tristeza, que menos jovens escolhem seguir os ofícios tradicionais, como a produção de grogue ou a agricultura em socalcos, porque guiar turistas ou trabalhar numa casa de turismo rural paga melhor e exige menos esforço físico. Compreendo a escolha, mas pergunto-me o que se perde quando esse conhecimento deixa de passar de pai para filho.

Um amigo agricultor de Corda disse-me: "Os turistas vêm ver como nós vivíamos. Um dia pode já não haver ninguém a viver assim para eles verem."

O equilíbrio que ainda estamos a encontrar

Não creio que a resposta seja travar o turismo, isso seria ingénuo e injusto para quem hoje depende dele. Mas tenho tentado, no meu trabalho como guia e agora neste site, encorajar quem visita a ilha a fazê-lo com mais tempo e menos pressa: ficar mais dias, visitar aldeias menos conhecidas, comer em casa de famílias locais em vez de restaurantes turísticos, e sobretudo, conversar com quem encontra pelo caminho. Santo Antão continua, para mim, uma das ilhas mais autênticas de Cabo Verde. Quero que continue assim, e isso depende tanto de quem vive aqui como de quem a visita.

O que gostaria que os visitantes soubessem

Se há uma coisa que gostaria que quem lê este site levasse consigo, é isto: cada escolha pequena, ficar numa casa rural em vez de num hotel de cadeia, comprar numa mercearia local, cumprimentar em português ou crioulo em vez de inglês, ajuda a manter viva a Santo Antão que me fez querer ser guia há mais de trinta anos. A ilha está a mudar. Espero que continue a mudar sem deixar de ser ela mesma.