Já perdi a conta às vezes que atravessei a Estrada da Corda, de carro, de mota, e uma vez, memoravelmente, a pé, depois de o carro de um cliente ter ficado sem bateria a meio do percurso. Continua a ser, para mim, a estrada mais bonita que já percorri.
Uma estrada construída pedra a pedra
A Estrada da Corda liga Porto Novo à Ribeira Grande ao longo de cerca de 36 km, atravessando o interior montanhoso da ilha. O que a torna especial não é só a paisagem, mas a história: foi construída à mão, pedra a pedra, ao longo de mais de trinta anos, por trabalhadores que enfrentaram um terreno que, em muitos troços, parecia recusar-se a receber uma estrada. Sempre que a percorro, penso nisso, e a viagem ganha outro peso.
O Delgadinho, o troço que separa os corajosos dos outros
Há um troço em particular, perto da povoação de Corda, conhecido como "Delgadinho", uma via estreita com abismos profundos de ambos os lados. Na primeira vez que levei visitantes por ali, parei o carro antes da curva mais exposta e perguntei se queriam continuar de olhos abertos ou fechados. A resposta foi sempre a mesma: abertos, mas em silêncio total.
Um dos meus clientes, um engenheiro civil reformado, disse-me a meio da travessia: "Isto não é uma estrada. Isto é uma proeza de engenharia sem engenheiros."
O carro que ficou sem bateria
A história mais memorável que tenho desta estrada não é sobre paisagem, é sobre uma avaria. Um casal francês que eu estava a guiar teve a bateria do carro alugado a falhar mesmo a meio do troço mais isolado, longe de qualquer povoação. Sem sinal de telemóvel e com o sol a começar a descer, caminhámos quase uma hora até encontrarmos uma pequena casa onde um agricultor nos ajudou a contactar a empresa de aluguer. Ficámos ali sentados a beber café coado na hora, à espera de um reboque que demorou mais três horas a chegar. O casal, no fim, disse-me que aquela tarde imprevista tinha sido o momento mais marcante de toda a viagem a Cabo Verde.
O que aprendi a dizer a quem vai conduzir por ali
Conduza devagar, mais devagar do que pensa ser necessário. Leve o depósito de combustível mais cheio do que o habitual, não há postos de combustível a meio do percurso. E, acima de tudo, pare nos miradouros. Não é uma estrada para se "despachar", é uma estrada para se atravessar como quem visita um lugar, não como quem apenas passa por ele.