Já passei por Fontainhas centenas de vezes, a guiar grupos ou sozinho. Mas há uma noite em particular que ainda hoje conto como exemplo do que a hospitalidade desta ilha realmente significa.
Um atraso que mudou os planos
Estava a fazer o trilho Ponta do Sol a Cruzinha sozinho, num dia de folga, sem qualquer grupo para guiar. Parei em Fontainhas mais tarde do que devia, entretido a fotografar a aldeia com a luz da tarde a cair sobre as encostas. Quando dei por mim, já não tinha tempo de completar o trilho até Cruzinha antes de escurecer, e ainda por cima começou a chover, o que na altura era pouco habitual para a época.
Um convite inesperado
Refugiei-me debaixo do beiral de uma casa junto ao caminho principal da aldeia, à espera que a chuva passasse. Um homem, talvez uns sessenta anos, saiu de casa ao ver-me ali parado e perguntou, sem rodeios, se eu já tinha jantado. Expliquei que era guia, que conhecia bem a zona, que não queria incomodar. Ele riu-se e respondeu algo que nunca esqueci: "Aqui não se deixa ninguém à chuva com fome. É essa a regra."
"Aqui não se deixa ninguém à chuva com fome. É essa a regra."
Uma mesa, uma família, uma conversa
Entrei. A casa era pequena, com uma mesa de madeira gasta pelo uso e uma família inteira reunida à volta dela, a esposa, dois filhos adultos e uma neta pequena que passou a noite a olhar para mim com uma curiosidade tímida. Jantámos cachupa e peixe seco, e o homem, que se chamava Nhô Djon, contou-me histórias da aldeia antes de se tornar famosa, de quando Fontainhas era apenas um lugar de passagem no trilho e não um destino fotografado por visitantes do mundo inteiro.
Perguntou-me o que eu achava das mudanças que a fama trazida pela National Geographic tinha causado. Respondi com sinceridade: que trazia visitantes e algum rendimento, mas que também trazia gente com pressa, a fotografar sem parar para conversar. Ele concordou, mas acrescentou: "Os que param para conversar, esses continuamos a receber como sempre recebemos."
O que essa noite me lembra sempre
Já contei esta história a dezenas de visitantes ao longo dos anos, normalmente quando alguém me pergunta porque é que os cabo-verdianos têm fama de hospitaleiros. Não é uma frase feita nem um slogan de turismo. É uma família a abrir a porta a um estranho encharcado de chuva, sem perguntar mais nada além de "já jantou?". Se tiver oportunidade de conversar com alguém em Fontainhas, mesmo que seja só por uns minutos, faça-o. É provavelmente a parte da viagem de que se vai lembrar com mais carinho.